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"Esse desejo de se perder trata-se, sem dúvida, do desejo de morrer, mas é ao mesmo tempo, o desejo de viver nos limites do possível e do impossível, com uma intensidade sempre maior. E o desejo de viver deixando de viver ou de morrer sem deixar de viver, o desejo de um estado extremo que talvez só santa teresa tenha descrito com tanta força, ao dizer: "Morro de não morrer!" Mas a morte de não morrer não é precisamente a morte, é o estado extremo da vida; se eu morro de não morrer, é com a condição de viver: é a morte, que vivendo, eu experimento, continuando a viver. Santa Teresa sentiu-se transtornada, mas não morreu realmente do desejo que teve de se perder. Ela perdeu o controle de si, não fez senão viver mais violentamente, tão violentamente que conseguiu dizer para si mesma que estava perto de morrer, mas de uma morte que, exasperando-a, não fazia extancar a vida." O Erotismo- Georges Bataille
Escrito por ellen-fante às 21h34
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Melancolia da Perda do Futuro (Aplicação de Freud nos dias de hoje)
Enquanto eu ouvia a melodia de outras vozes e devorava o que mataram cruéis algozes você, na mesa do lado, sorria aos seus amigos e a mim, nem percebia.
Ao som de Gipsy Kings, eu romantizava o início de um amor de bandejão você viria lentamente e declamava sem meias palavras, sua verdadeira intenção.
Enfim, me viu. Ao acabar a tua janta. Tentei usar todo o poder de sedução. Fui percebida. (Acho que teu olhar virou desejo). Por conseqüência, fiz pose de provocação.
Como um reflexo, você se foi naquela hora. Recalcando o que já era recalcado. Me contentei em contemplar o meu cronômetro: o recorde de meu romance fracassado.
(A felicidade é a maior repressão do mundo moderno.)
Escrito por ellen-fante às 13h30
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Formato Mínimo (canção para Pedro)
–Se a vida é um baile por que não me concedes outra dança?
–Reino de ontem Coberto de Cinzas pisado a chinelas Feneceu.
–Se a vida é doce por que não me torna uma diabética?
–A flecha lançada O gozo derramado A palavra pronunciada Já foi.
–Ainda acredito em algo.
–Tudo apodrece antes da morte.
–Um romance de veludo...
–Acabou-se no frio.
Escrito por ellen-fante às 14h15
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Dúvida
Para onde vão as palavras
depois de sugadas pelo ouvido?
Escrito por ellen-fante às 10h13
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Belle – Époque
Nasci depois que Foucault morreu depois de duas guerras depois do Titanic depois da quebra de 29.
Não vi o Santos de ouro dos anos 70 a festa livre de Woodstock o calhambeque de Roberto a vassourinha do presidente Jânio.
Perdi a queda do Império Romano a pedra na cruz de Cristo a conquista dos muçulmanos a maçã de Isaac Newton.
Não fui analisada por Freud disputada por Tróia queimada na fogueira musa grega ou Monalisa.
Não cavalguei o cavalo de D. Pedro Não passeei com sofistas iludidos Não estudei evolução em Galápagos Não festejei Tiradentes morto esquartejado. Só li em livros.
Escrito por ellen-fante às 13h49
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Mito da Caverna
Thiago era uma criança tão mimada e bem criada que ouvia e obedecia tudo que sua mãe dizia.
Não brinque com o fogo, Você pode se queimar. Com tanta advertência, achou prudente se cuidar.
Mas medo e zelo demais só poderiam estragar o rapaz, quando acendia o fogão já corria logo para trás.
Seus amigos da escola e até os quais jogava bola chamavam o menino de cagão e ele vestia sua cara de chorão.
Até que em uma certa manhã resolveu andar por outro caminho. Encontrou um prédio em chamas, um ensejo aberto sorrindo.
Lembrou das palavras da mãe e quase deu meia-volta. Mas sua vontade era tanta que quis ir, ao menos, até a porta.
Como era inexperiente a chance de se queimar era muito maior. E como o fogo é exigente o perigo de ali não sair era cada vez pior.
Ficou na beirinha a pensar como seu dilema solucionar Aceitar seu destino covarde ou enfrentar o incêndio que arde.
E se fizesse as duas coisas? Após adentrar o candente prédio retornar ao seu antigo tédio? Ninguém precisava saber o que iria acontecer.
O problema-mor se compunha se do fogo, ele saísse queimado além da forte dor que sentiria à sua mãe, ele teria decepcionado.
Ela, por sua vez, evidente, o perdoaria. No entanto, um triste rancor, em seu peito, fincaria.
Com uma cicatriz, para sempre, Thiago ficaria marcado. Por mais cuidado e amor sua mãe o tivesse dado.
Então o melhor seria voltar seguro para casa? Permanecer no seu canto mantido sem pisar os pés na brasa? Qual é a graça da vida Se não sairmos debaixo da asa?
De tanto refletir a questão Thiago não suportou o fado Se jogou na frente de um carro e morreu atropelado.
Escrito por ellen-fante às 13h19
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Jardim de Academo
Minha academia não tem Ray-Ban Pilates Personal Trainer Steppers Bicicleta Body Pump Jovens Sarados Gatas Malhadas Tias Gostosas Bombados Turbinados Barras de Cereal Vitamina Diet Nike Adidas Puma Mizuno Coxas Torneadas Bundas Firmes Barriga Chapada Fitness Spinning Speedo Grandes Equipamentos de Última Geração.
na minha academia só entra comedor cego podólatra vivo viciado barrigudo bêbado escritor sadomasoquista maconheiro viado tarado gênio da literatura fodido frasista usado discreto artista careca experiente amarrado consumidor impulsivo alucinado louco duro entendido indecente desgostoso desiludido maníaco suicida grande poeta sem imitação.
Escrito por ellen-fante às 12h46
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Adoráveis criaturas Frankstein
Barbies Anoréxicas inspiradas na última moda da Fashion Week Pseudo Punks Alucinadas com chá de Coca Zero Santas Católicas que freqüentam a Missa e o Confessionário todos os dias Lésbicas da Última Semana furando o Mamilo com o piercing das Amigas Maconheiras do Centro Acadêmico que estudam Russo e decoram Marx Namoradas Ciumentas Zelosas Chatas Desconfiadas Ricas do Berço de Ouro, bolsas e sapatos parisienses, com solado Sujo de Merda. Nostálgicas da Tropicália, adoradores de Chico e Odair José Hippies de São Paulo que não transam sem pílula nem camisinha Alemãs Chinesas Peruanas e outras gringas Africanas Sadomasoquistas de coturno e Lápis no Olho cobrindo as coxas Acadêmicas Concentradas nos Orientandos e em Suas pesquisas Supostas Selenitas que caíram na Terra por Acidente
correm para abrir as Pernas e cagar na Mesma privada.
Escrito por ellen-fante às 13h24
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Poema – Processo
1 Drummond picado; 1 Cabral de reserva; 1 Gullar esquartejado; 2 Campos em conserva.
Fica bem com pão de açúcar. Consumir ainda quente. Ideal para pic-nics.
O resto da refeição jogar no lixo.
Escrito por ellen-fante às 10h50
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Mesma Merda
Em uma manhã morna minha branda amante com medo da bronca da mãe me abandonou.
Me melancolizei. e num momento mórbido pulei da ponte morri.
Escrito por ellen-fante às 09h51
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06:45-07:10
Eu dou Bom-dia ao guardinha da rua onde moro enquanto guardo a chave na bolsa. Olho para os dois lados e atravesso a rua. Agora eu já não a chamo mais para atravessar também. Vejo a moça que usava o cabelo preso e desde o começo do inverno, passa por mim com os lindos cachos soltos. Ela olha para mim, mas não me cumprimenta nunca. Prendo a respiração quando passo pelo carrinheiro que dorme todos os dias embaixo de um puxadinho do prédio Jardim das Universidades. Passo sem olhar para o lado pela construção do prédio vizinho, onde sempre ouço um Bom-dia, princesa, mas não respondo. Passo por dois meninos que parecem caminhar para a escola. Um deles está sempre com um boné cor-de-creme de lado. Atravesso a avenida, mas essa nem presto muita atenção. Passo pelos táxis estacionados, pela banca de jornal e subo a primeira ladeira. Muito lixo no chão, o poste com marcas de sangue (eu vi a cabeça de onde esse sangue saiu: um rapaz apanhando enquanto assaltado semana passada, não pude fazer nada para ajudar), a laranja que secou e sobrou uma coisa parecida com uma bolinha de ping-pong encardida e quebrada. Olho meu reflexo pelo vidro dos carros que dormem na rua, o japonês que mora na esquina e fuma um cigarro na calçada enquanto seu Passat esquenta. Cumprimento agora os guardinhas que conversam no portão da Cidade Universitária, tem um que me chama de Meu amor, o outro canta sertanejo, e subo a segunda ladeira, prestando atenção no mato que cresce rapidamente dos dois lados da estradinha. Já vi lagarto, coruja, rato e esta semana, vi uma cotia passeando por ali. Até sonhei com ela (mas no meu sonho eram tantas!). Essa ladeira é bem maior e íngrime, nessa parte sempre tiro o casaco, mesmo na friaca, eu passo um calorão quando ando e só volto a colocar o casaco dentro do ônibus quando meu corpo já esfriou. Terminada a ladeira, cumprimento outro guardinha, com o mesmo sorriso-máscara que não escondo (mesmo esse sorriso falso as pessoas dizem que é bonito). No livro do Gulliver tem uma parte que diz que todos nasceram para serem simpáticos. Daí continuando, desço a estradinha, tento manter o mesmo ritmo, mas minha vontade é correr na descida e já embalar com a rua onde logo mais eu paro no ponto-de-ônibus. Nessa rua sempre fico olhando para trás pra ver se o ônibus não está vindo, porque odeio perdê-lo quando já estou tão perto. Passo por uma árvore que está cheia de côcos vazios, porque à tarde um moço de kombi vende água-de-côco ali e no fim do expediente, larga os côcos pendurados na árvore ou pelo chão mesmo. No ponto-de-ônibus sempre tem muita gente de manhã, todos querem o Circular, que, normalmente, já vem lotado de outros estudantes e funcionários. Eu, normalmente, espero uns cinco minutos enquanto o ponto vai enchendo mais ainda e assim que o ônibus aponta no fim da curva, todo mundo se dirige para a beirinha-da-rua bem às pressas, para entrar primeiro e conseguir as últimas poltronas.
Escrito por ellen-fante às 10h22
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Livros Extraviados - Parte 2
Risíveis Amores
Flávio não gozava com as mulheres porque tinha medo de engravidá-las. “Não é a altura que me preocupa, mas o impacto da queda”. Elas então entendiam que ele era um cara sensível e merecedor de seus corações.
A rosa do povo
Entrou na faculdade de Ciências Políticas. Acreditava que poderia renunciar sua vida privada para dedicar-se à defesa pública dos aterrorizados. Queria abolir a teoria de que era impossível encontrar o ideal.
Em busca do tempo perdido
No segundo ano, resolveu assumir sua homossexualidade. Entrou no Centro Acadêmico e saiu de casa. Bebeu namorados até o fim da graduação sem moderação ou canudinho. Pergunte ao Pó Passou a escrever para o jornal da faculdade. Como não era de vidro, achou seu jeito de expôr seus pensamentos. Muitos vezes, ficou estilhaçado no chão, mas seus amigos o tratavam de recompô-lo.
Mar Morto
Quando sua mãe faleceu passou dias de luto eterno. Caso houvesse um concurso de cabisbaixos, seria indubilmente vencedor. No entanto, não chorou. Trauma do pai, talvez. "Homem não chora, rapaz!"
Escrito por ellen-fante às 16h08
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Vou-me embora para Guanxuma.
Vou-me embora para Guanxuma Desta cidade, eu já cansei. Não durmo mais com quem quero Lá... eu ainda não sei.
Vou-me embora para Guanxuma Uma terra onde o que planta, dá Não que eu seja lavradora Mas se eu quiser, posso virar.
Vou-me embora para Guanxuma Andar na praia de Guaratatá Sem ter medo de pegar doença Que as ervas de lá não possam curar.
Vou-me embora para Guanxuma Melhor lugar para eu descansar Cama macia em Pasárgada Já estou farto de disputar.
Vou-me embora para Guanxuma Não sentirei falta deste lugar Talvez de você, Bandeira, querido Mas, por favor, queira me visitar.
Vou-me embora para Guanxuma Lá não sou amiga do rei Tudo bem, serei vizinha do Caio, Além do mais, lá nem tem rei.
Escrito por ellen-fante às 15h18
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Nome Próprio
Pulso
Só o fim permanece.
Eu me dissolvo antes do fim.
Impulso
Calar é morrer.
Ctrl+A.
Delete.
Escrito por ellen-fante às 14h43
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Livros Extraviados - Parte I
Pequeno Príncipe
Nasceu de nove meses e meio com olhos grandes e abertos. Não chorou no Berçário e todas as enfermeiras gostaram dele. "Você é responsável por aquilo que cativas."
Infância
Quando criança, brincava com as agulhas de sua mãe costureira. Depois escondia os corpos esquartejados das formigas no prato de seu irmão mais novo. Que comia tudo sem perceber a brincadeira.
Os Lusíadas
Seu pai só aparava os bigodes quando passava-os a comer. "Pão com pêlo não dá, meu filho, estraga a janta e afasta a clientela." falava o altivo padeiro.
A hora da estrela
Aos onze anos, conheceu Afonso. O colega mostrou como classificar um bom amigo: de acordo com a distância do cuspe. Conheceu também a via láctea que saía de si depois de dormir bem ou brincar de pega-pega.
Rei da Vela
Foi coroinha da igreja apesar da pouca idade. Devorava diariamente a Bíblia, seu romance de veludo. Sua digestão era lenta, pois engasgava com alguns versículos.
Escrito por ellen-fante às 15h40
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