O preço da dedicatória
Duas semanas depois e eu ainda tinha quatro exemplares do livro para vender. A editora estava paga, mas eu precisava me reembolsar: o mês acabando, a conta já no limite e, no quase desespero, sentei num banco da faculdade e resolvi esperar o relógio atingir nove da noite. Vitor ia sair da sala de aula e me compraria uma cerveja. Vitor é um desses caras que não preciso ver sempre, mas quando eu preciso ou ele está a fim, nos encontramos e dividimos um chopp. No estado em que estava, triste e dura de pedra, meu amigo não reclamaria de pagar sozinho dessa vez. Voltando ao banco, sabia que ficaria por ali quase uma hora até o Vitor aparecer. Tudo bem, penso na vida, recorro a fantasias platônicas, crio diálogos improváveis de ocorrer, o tempo passa e eu nem vi. Foi o que eu achava que seria minha próxima hora. Foi o que eu gostaria que tivesse acontecido. Há dois anos, quando entrei na faculdade, uma das primeiras aulas que assisti foi com um professor, diria eu e outros alunos, um pouco diferente do cânone docente acadêmico: cabelo comprido, tatuagens, piercings, falava palavrão e o escambau (sempre quis usar essa palavra). Além disso, o professor era bom. Verdadeiramente inteligente, discursava sobre tudo, entendia o papo dos velhos, as gírias dos jovens e topava ir ao bar caso o convidassem. Ou seja, na minha cabeça de caloura, um deus terreno. Fora não perder nenhuma aula, participar dos congressos que ele palestrava, ler os livros que ele havia escrito, em pouco tempo, fiz questão que ele enxergasse minha pessoa e entendesse que crescia em mim uma veneração absoluta. Não foi difícil tal proeza, mas quem sou eu além de mera mortal? Minha admiração não diminuiu quando mudei de período na faculdade e não o via mais pelos corredores. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, mostraria para ele que também era digna de orgulho: tiraria dez num mestrado, seria famosa, publicaria um livro, ou qualquer outra coisa que brilharia os olhos dele por mim. Mal sabia que esse sonho utópico chegaria antes do esperado. Não demorou muito para eu publicar uma poesia em um livro e surgir na sala dele para contar a novidade. Logo depois, publiquei uma crônica e feliz da vida, lá voltei. Prometeu comprar meu livro. Sorri de orelha a orelha. Contava os dias até esse dia chegar. Naquele banco, desiludida com a vida e a conta bancária, não fazia noção que todo meu plano de ilusões incomedidas iria por água abaixo. Seus olhos não brilhariam. Sua boca não falaria “Você é A mina”. Eu não seria feliz para sempre. Encontrei com ele. Ou melhor, ele chamou meu nome e em seguida, perguntou do livro. “Estou com ele aqui”. Falei. E ele, prontamente, surpreendentemente, maravilhosamente, disse: “Vou comprar. Quero um autógrafo”. Pronto. As portas do inferno abriram para me receber. O que iria escrever pra ele? “Um beijo da sua fã” ou “Casa comigo” ou “Agradeço o apoio”?. Comecei a tremer, suar frio (esse suor de coca-cola gelada fora da geladeira já está me irritando), pensei em mil coisas e permaneci com a caneta inerte por sabe-se lá quanto tempo; tempo suficiente para “Não precisa pensar muito. É só uma lembrança”, ele falou. Quase beijei o livro e inventei uma fórmula mágica para enfiar-me dentro do livro e ir com ele para casa. No calor da emoção, sem pensar direito, escrevi: “Agora já sei que você tem muito orgulho de mim. Espero vê-lo nos próximos lançamentos. Dias mais quentes para nós”. Escrevi. Li. Arrependi. Que menina idiota! Isso é coisa que se escreva? Você quer que ele se impressione ou decepcione? Rasga a folha, pega outro livro, joga fora. Voltei a tremer, se é que eu tinha parado por algum momento. Ele: “Dá o livro, deixa eu ler.” Entreguei e baixei a cabeça. “Professor, ficou horrível. Desculpa”. Cara de luto. De ambas as partes: eu, porque assinei meu atestado de burrice e ele, por ler uma dedicatória tão ruim. “É, poderia ter ficado melhor”. Agradeceu-me mesmo assim e foi embora. Não chorei, não esperneei, não cortei os pulsos. No entanto, por dentro, estava morta, cremada e jogada ao mar. Decidi que nunca mais apareceria na frente dele, nunca mais viria na faculdade em outro período, nunca mais falaria o nome dele na minha vida. Ninguém saberia dessa história, do meu trauma, da minha impotência. Quer dizer, assim também pensei que seria. Até o Vitor aparecer, feliz e contente, dizendo que havia tirado dez numa prova, me pagaria quantas cervejas eu quisesse e estava pronto para me ouvir.
Escrito por ellen-fante às 18h42
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