El-Ritepramim


06:45-07:10

Eu dou Bom-dia ao guardinha da rua onde moro enquanto guardo a chave na bolsa. Olho para os dois lados e atravesso a rua. Agora eu já não a chamo mais para atravessar também. Vejo a moça que usava o cabelo preso e desde o começo do inverno, passa por mim com os lindos cachos soltos. Ela olha para mim, mas não me cumprimenta nunca. Prendo a respiração quando passo pelo carrinheiro que dorme todos os dias embaixo de um puxadinho do prédio Jardim das Universidades. Passo sem olhar para o lado pela construção do prédio vizinho, onde sempre ouço um Bom-dia, princesa, mas não respondo. Passo por dois meninos que parecem caminhar para a escola. Um deles está sempre com um boné cor-de-creme de lado. Atravesso a avenida, mas essa nem presto muita atenção. Passo pelos táxis estacionados, pela banca de jornal e subo a primeira ladeira. Muito lixo no chão, o poste com marcas de sangue (eu vi a cabeça de onde esse sangue saiu: um rapaz apanhando enquanto assaltado semana passada, não pude fazer nada para ajudar), a laranja que secou e sobrou uma coisa parecida com uma bolinha de ping-pong encardida e quebrada. Olho meu reflexo pelo vidro dos carros que dormem na rua, o japonês que mora na esquina e fuma um cigarro na calçada enquanto seu Passat esquenta. Cumprimento agora os guardinhas que conversam no portão da Cidade Universitária, tem um que me chama de Meu amor, o outro canta sertanejo, e subo a segunda ladeira, prestando atenção no mato que cresce rapidamente dos dois lados da estradinha. Já vi lagarto, coruja, rato e esta semana, vi uma cotia passeando por ali. Até sonhei com ela (mas no meu sonho eram tantas!). Essa ladeira é bem maior e íngrime, nessa parte sempre tiro o casaco, mesmo na friaca, eu passo um calorão quando ando e só volto a colocar o casaco dentro do ônibus quando meu corpo já esfriou. Terminada a ladeira, cumprimento outro guardinha, com o mesmo sorriso-máscara que não escondo (mesmo esse sorriso falso as pessoas dizem que é bonito). No livro do Gulliver tem uma parte que diz que todos nasceram para serem simpáticos. Daí continuando, desço a estradinha, tento manter o mesmo ritmo, mas minha vontade é correr na descida e já embalar com a rua onde logo mais eu paro no ponto-de-ônibus. Nessa rua sempre fico olhando para trás pra ver se o ônibus não está vindo, porque odeio perdê-lo quando já estou tão perto. Passo por uma árvore que está cheia de côcos vazios, porque à tarde um moço de kombi vende água-de-côco ali e no fim do expediente, larga os côcos pendurados na árvore ou pelo chão mesmo. No ponto-de-ônibus sempre tem muita gente de manhã, todos querem o Circular, que, normalmente, já vem lotado de outros estudantes e funcionários. Eu, normalmente, espero uns cinco minutos enquanto o ponto vai enchendo mais ainda e assim que o ônibus aponta no fim da curva, todo mundo se dirige para a beirinha-da-rua bem às pressas, para entrar primeiro e conseguir as últimas poltronas.



Escrito por ellen-fante às 10h22
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Livros Extraviados - Parte 2

Risíveis Amores

Flávio não gozava com as mulheres porque tinha medo de engravidá-las.
“Não é a altura que me preocupa, mas o impacto da queda”.
Elas então entendiam que ele era um cara sensível e merecedor de seus corações.

A rosa do povo

Entrou na faculdade de Ciências Políticas.
Acreditava que poderia renunciar sua vida privada para dedicar-se à defesa pública dos aterrorizados.
Queria abolir a teoria de que era impossível encontrar o ideal.

Em busca do tempo perdido

No segundo ano, resolveu assumir sua homossexualidade.
Entrou no Centro Acadêmico e saiu de casa.
Bebeu namorados até o fim da graduação sem moderação ou canudinho.
 
Pergunte ao Pó
 
Passou a escrever para o jornal da faculdade.
Como não era de vidro, achou seu jeito de expôr seus pensamentos.
Muitos vezes, ficou estilhaçado no chão, mas seus amigos o tratavam de recompô-lo.

Mar Morto

Quando sua mãe faleceu passou dias de luto eterno.
Caso houvesse um concurso de cabisbaixos, seria indubilmente vencedor.
No entanto, não chorou. Trauma do pai, talvez. "Homem não chora, rapaz!"



Escrito por ellen-fante às 16h08
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Vou-me embora para Guanxuma.

Vou-me embora para Guanxuma
Desta cidade, eu já cansei.
Não durmo mais com quem quero
Lá... eu ainda não sei.

Vou-me embora para Guanxuma
Uma terra onde o que planta, dá
Não que eu seja lavradora
Mas se eu quiser, posso virar.

Vou-me embora para Guanxuma
Andar na praia de Guaratatá
Sem ter medo de pegar doença
Que as ervas de lá não possam curar.

Vou-me embora para Guanxuma
Melhor lugar para eu descansar
Cama macia em Pasárgada
Já estou farto de disputar.

Vou-me embora para Guanxuma
Não sentirei falta deste lugar
Talvez de você, Bandeira, querido
Mas, por favor, queira me visitar.

Vou-me embora para Guanxuma
Lá não sou amiga do rei
Tudo bem, serei vizinha do Caio,
Além do mais, lá nem tem rei.



Escrito por ellen-fante às 15h18
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Nome Próprio
 
Pulso
Só o fim permanece.
Eu me dissolvo antes do fim.
 
Impulso
Calar é morrer.
 
Ctrl+A.
Delete.


Escrito por ellen-fante às 14h43
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Livros Extraviados - Parte I

Pequeno Príncipe

Nasceu de nove meses e meio com olhos grandes e abertos.
Não chorou no Berçário e todas as enfermeiras gostaram dele.
"Você é responsável por aquilo que cativas."

Infância

Quando criança, brincava com as agulhas de sua mãe costureira.
Depois escondia os corpos esquartejados das formigas no prato de seu irmão mais novo.
Que comia tudo sem perceber a brincadeira.

Os Lusíadas

Seu pai só aparava os bigodes quando passava-os a comer.
"Pão com pêlo não dá, meu filho, estraga a janta
e afasta a clientela." falava o altivo padeiro.

A hora da estrela

Aos onze anos, conheceu Afonso.
O colega mostrou como classificar um bom amigo: de acordo com a distância do cuspe.
Conheceu também a via láctea que saía de si depois de dormir bem ou brincar de pega-pega.

Rei da Vela

Foi coroinha da igreja apesar da pouca idade.
Devorava diariamente a Bíblia, seu romance de veludo.
Sua digestão era lenta, pois engasgava com alguns versículos.



Escrito por ellen-fante às 15h40
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Contos de Bruxa-Madrinha

Achava minha vida mais saudável quando era escrava de amores platônicos, feito princesa presa em castelo em contos de fadas.
Essa história de transformá-los em sapos é como cair do cavalo depois de tanto cavalgar: no começo dá até um alívio, mas depois fica chato.

A caminhada aqui por terra não é tão emocionante.



Escrito por ellen-fante às 17h36
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Papel (in)cômodo

Enquanto dormes em meu peito bem profundo
Sonhando com o teu mundo mais tranquilo
Finjo ter o teu inteiro nos meus braços
Tolo e sincero apego puro tão bonito.

Então acordas e volto ao real esforço
que é viver, fundo do poço inteligível.
Vai trabalhar, manter teu cargo importante,
nos sustentar, caminhar contra o abismo.

Quando retornas, preguiçoso, a morada
e me recebes com um rótulo sorriso
eu me dissolvo em saturadas lágrimas
e me conformo com a cozinha esvaziada.

Depois deitamos. O sono é o que nos resta
e não há festa debaixo deste cobertor
Há um lamento quedo, cúmplice e querido
de quem só quer se preocupar com dor de amor.



Escrito por ellen-fante às 13h29
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O preço da dedicatória

            Duas semanas depois e eu ainda tinha quatro exemplares do livro para vender. A editora estava paga, mas eu precisava me reembolsar: o mês acabando, a conta já no limite e, no quase desespero, sentei num banco da faculdade e resolvi esperar o relógio atingir nove da noite. Vitor ia sair da sala de aula e me compraria uma cerveja.
           Vitor é um desses caras que não preciso ver sempre, mas quando eu preciso ou ele está a fim, nos encontramos e dividimos um chopp. No estado em que estava, triste e dura de pedra, meu amigo não reclamaria de pagar sozinho dessa vez.
           Voltando ao banco, sabia que ficaria por ali quase uma hora até o Vitor aparecer. Tudo bem, penso na vida, recorro a fantasias platônicas, crio diálogos improváveis de ocorrer, o tempo passa e eu nem vi. Foi o que eu achava que seria minha próxima hora. Foi o que eu gostaria que tivesse acontecido.
           Há dois anos, quando entrei na faculdade, uma das primeiras aulas que assisti foi com um professor, diria eu e outros alunos, um pouco diferente do cânone docente acadêmico: cabelo comprido, tatuagens, piercings, falava palavrão e o escambau (sempre quis usar essa palavra).
          Além disso, o professor era bom. Verdadeiramente inteligente, discursava sobre tudo, entendia o papo dos velhos, as gírias dos jovens e topava ir ao bar caso o convidassem. Ou seja, na minha cabeça de caloura, um deus terreno.
          Fora não perder nenhuma aula, participar dos congressos que ele palestrava, ler os livros que ele havia escrito, em pouco tempo, fiz questão que ele enxergasse minha pessoa e entendesse que crescia em mim uma veneração absoluta. Não foi difícil tal proeza, mas quem sou eu além de mera mortal?
          Minha admiração não diminuiu quando mudei de período na faculdade e não o via mais pelos corredores. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, mostraria para ele que também era digna de orgulho: tiraria dez num mestrado, seria famosa, publicaria um livro, ou qualquer outra coisa que brilharia os olhos dele por mim.
         Mal sabia que esse sonho utópico chegaria antes do esperado. Não demorou muito para eu publicar uma poesia em um livro e surgir na sala dele para contar a novidade. Logo depois, publiquei uma crônica e feliz da vida, lá voltei. Prometeu comprar meu livro. Sorri de orelha a orelha. Contava os dias até esse dia chegar.
        Naquele banco, desiludida com a vida e a conta bancária, não fazia noção que todo meu plano de ilusões incomedidas iria por água abaixo. Seus olhos não brilhariam. Sua boca não falaria “Você é A mina”. Eu não seria feliz para sempre.
        Encontrei com ele. Ou melhor, ele chamou meu nome e em seguida, perguntou do livro. “Estou com ele aqui”. Falei. E ele, prontamente, surpreendentemente, maravilhosamente, disse: “Vou comprar. Quero um autógrafo”.
        Pronto. As portas do inferno abriram para me receber. O que iria escrever pra ele? “Um beijo da sua fã” ou “Casa comigo” ou “Agradeço o apoio”?. Comecei a tremer, suar frio (esse suor de coca-cola gelada fora da geladeira já está me irritando), pensei em mil coisas e permaneci com a caneta inerte por sabe-se lá quanto tempo; tempo suficiente para “Não precisa pensar muito. É só uma lembrança”, ele falou. Quase beijei o livro e inventei uma fórmula mágica para enfiar-me dentro do livro e ir com ele para casa. No calor da emoção, sem pensar direito, escrevi: “Agora já sei que você tem muito orgulho de mim. Espero vê-lo nos próximos lançamentos. Dias mais quentes para nós”.
        Escrevi. Li. Arrependi. Que menina idiota! Isso é coisa que se escreva? Você quer que ele se impressione ou decepcione? Rasga a folha, pega outro livro, joga fora. Voltei a tremer, se é que eu tinha parado por algum momento. Ele: “Dá o livro, deixa eu ler.” Entreguei e baixei a cabeça. “Professor, ficou horrível. Desculpa”. Cara de luto. De ambas as partes: eu, porque assinei meu atestado de burrice e ele, por ler uma dedicatória tão ruim. “É, poderia ter ficado melhor”. Agradeceu-me mesmo assim e foi embora.
        Não chorei, não esperneei, não cortei os pulsos. No entanto, por dentro, estava morta, cremada e jogada ao mar. Decidi que nunca mais apareceria na frente dele, nunca mais viria na faculdade em outro período, nunca mais falaria o nome dele na minha vida. Ninguém saberia dessa história, do meu trauma, da minha impotência. Quer dizer, assim também pensei que seria. Até o Vitor aparecer, feliz e contente, dizendo que havia tirado dez numa prova, me pagaria quantas cervejas eu quisesse e estava pronto para me ouvir.



Escrito por ellen-fante às 18h42
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receita

um bom sujeito, pra matar o tedio,
tenta de tudo, pula do predio,
atira no peito, mas não tem jeito.
o tedio só morre de cansaço.

Escrito por ellen-fante às 18h55
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Descrença vantajosa
 
Se eu for para o céu, que ele seja verde, porque azul me dá sono e eu quero ficar bem acordada para assistir os anjinhos peladinhos tocando harpa.
Se eu for para o céu, que eu possa comer tudo o que eu deixei de comer na Terra para ficar com um corpo magro, já que por aqui, gente gorda não consegue emprego, mesmo se for competente.
Se eu for para o céu, que eu possa ler todos os livros e ver todos os filmes que eu deixei de ler e ver, porque tive que passar a vida inteira trabalhando para pagar as contas e não deu tempo.
Se eu for para o céu, que eu fique amiga de São Pedro, para lembrá-lo de deixar os dias ensolarados para os fins de semana e férias e não para as quartas-feiras cheias de serviço.
Se eu for para o céu, que eu saiba voar, porque na Terra sempre tive vontade de escalar montanhas e apreciar belas vistas, mas meu medo de altura não me deixou.
Se eu for para o céu, que eu baile loucamente sem ficar suada, porque adoro dançar o tempo todo, mas penso que meu parceiro de pista não deve gostar do meu cheiro depois de algumas valsas.
Se eu for para o céu, que eu seja igual a todo mundo, nem feia, nem pobre; porque mesmo sem gostar de padrões e amar a diversidade, gostaria de morar num ambiente sem diferença e preconceito.
Se eu for para o céu, que eu possa viver sem escovar os dentes e não ter cáries, porque sempre achei um desperdício de vida escová-los, mesmo sabendo que é necessário.
Se eu for para o céu, que eu não precise fingir um orgasmo, porque se lá é o Paraíso que todos dizem, eu terei horas de prazer incalculáveis.
 
Agora, se eu for para o inferno, ah... eu não vou para o inferno. Não acredito nessas coisas.



Escrito por ellen-fante às 16h50
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O garoto do outro lado da rua balbuceia alguma coisa pra mim enquanto espero alguém do outro lado da linha atender o telefone. Eu não entendo. Faz gestos de libras. Eu não aprendi direito. Fala baixinho mexendo os lábios devagar para ver se eu decifro. Nada. Faz cara de cansado de tentar se comunicar. Olha no relógio, me manda um beijo e vai embora. Quem disse que sei sempre o que é melhor pra mim?

Escrito por ellen-fante às 19h42
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Um brinde

Aos fins de rolês intermináveis. À frigideira com tampa.
À cantora talentosa e tatuada. Aos sambas.
À vitória de goleada. À segunda divisão.
Aos sites de downloads inesgotáveis. À inspiração.

Aos celulares pós-pagos. À família que te adora.
Aos dicionários. À melhor hora.
À missão dos revolucionários. Aos abraços dados sem esforço.
Aos casacos doados. Aos beijos todos.

Aos almoços na bandeja. Aos encontros inesperados.
À timidez esquecida. Aos amigos encalhados.
À melhor idade da vida. Aos presentes.
À primeira cerveja. Aos ausentes.

À coluna sem dor. Ao sexo selvagem.
Ao salário na conta. À incrível viagem.
À tecnologia de ponta. À lembrança do carnaval.
À promessa de amor. À pílula anticoncepcional.



Escrito por ellen-fante às 10h24
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Perdoem-me (a)sinceridade

Praticaria aborto. Não vingaria uma traição.
Seria mãe. Não seria juíza.
            Lutaria em uma guerra. Não filmaria uma transa.
                                    Revelaria um segredo. Não seria cega.
Faria eutanásia. Não perderia a fé.
                   Casaria na igreja. Não me converteria.
 Permaneceria em coma. Não me arrependeria.
                              Moraria em um convento. Não jejuaria.
Doaria meus órgãos. Não posaria na Playboy.
                   Trabalharia de graça. Não mataria meus pais.
  Largaria a faculdade. Não voltaria.
         Fugiria para longe. Não beijaria uma mulher.
                     Seria homem. Não voltaria a ser criança.
Usaria drogas. Não cometeria adultério.
Morreria de câncer. Não teria aids.
                        Contaria mentiras. Não falaria a verdade.
                 Cuspiria no prato que comi.
                                                                 Não terminaria uma história.



Escrito por ellen-fante às 18h35
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 Queda que as mulheres têm para os tolos.

 

Poderia ser Machado de Assis, considerado um dos maiores gênios da Literatura Brasileira. Temos o mesmo segundo nome, nosso primeiro emprego foi no mesmo lugar, nascemos no mesmo mês, e de quebra, nosso primeiro livro foi de poesias. Indícios, coincidências ou provas poderiam me fazer pensar que morreria aos sessenta e nove anos e tornaria imortal na Academia Brasileira de Letras. No entanto, mesmo bêbado, incompreendido, sem dinheiro e esquecido, preferiria ser a encarnação de Oswald de Andrade. Questão de gosto, vai entender.



Escrito por ellen-fante às 14h56
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Ultimo cliente
 
'Quem está morto não tem tempo.' Ele disse. 'Frase do Alcorão e Allan Poe usa graciosamente em um conto.'
 
E eu me encuquei. Preciso viver a vida. Depois de morta, não poderei aproveitar. Vou, então, pular de para-quedas, vou faltar na faculdade e usar minhas manhãs para conhecer museus, vou assistir todas as sessões de cinema gratuitas da cidade, vou paquerar todos os meninos bonitos da faculdade sem aliança no dedo, vou esquiar em São Roque (que é barato), vou de carona para Argentina, vou sambar no Bairro da Bexiga e beber litros de cerveja de graça (tenho um amigo garçom), vou comer todo sorvete que puder sem medo de engordar, vou cozinhar para os meus amigos, vou...
'Já comeu peixe na folha de bananeira?' Ele perguntou, enquanto folheava um livro de receitas.
'Sim, uma delícia.' Menti.
Não sei porque sempre minto quando me perguntam se já comi alguma coisa diferente. Digo que sim e dependendo da cara da pessoa, digo se gostei ou não.
'Mas você nunca comeu o peixe que nós, mexicanos, fazemos na folha de bananeira, aposto.'
Soltei um risinho e resolvi responder a verdade dessa vez. 'Nunca comi.' Mais uma das coisas que vou fazer antes que eu morra. Vou comer peixe na folha de bananeira. Mas é melhor eu me apressar, vai que eu morro amanhã.
'Não se preocupe, você não vai morrer amanhã.' Sério, o mexicano, na minha frente, do outro lado do balcão, pareceu ter lido meu pensamento. Agradeceu e foi embora.
Realmente, é melhor não deixar os dias passarem.



Escrito por ellen-fante às 18h29
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